terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Um falou na pachacha, outro mostrou o pirilau

Se me pedissem para escolher o episódio, o facto, o momento, mais marcante, mais memorável, e mais determinante da – verdadeiramente espantosa – eleição presidencial nos EUA de 2016 (e foram tantos!), que de facto começou em 2015 com as primárias nos Partidos Democrata e Republicano, e que, compreensivelmente, para uns foi a «melhor de sempre» e para outros foi a «pior de sempre», eu diria que…
… Teria de ser a divulgação da conversa, tida em 2005, entre Donald Trump e Billy Bush (primo de George W. e de Jeb), registada aquando da gravação de uma emissão do programa «Access Hollywood», e que incluiu afirmações – supostamente off-the-record – de índole sexual de gosto muito duvidoso por parte do candidato republicano, em especial a de que, quando se é famoso, se pode «agarrar as mulheres pela pachacha» («grab them by the pussy»). Curiosamente, não foi a NBC, estação a que pertence o referido programa e também, refira-se, «O Aprendiz», que o agora presidente-eleito apresentou durante 14 temporadas, que revelou inicialmente a gravação, mas sim o Washington Post, que, decidida e definitivamente, confirmou a sua principal vocação – a de (tentar) desestabilizar e derrubar presidentes e candidatos do GOP desde 1974… não por acaso, o jornal agora possuído por Jeff Bezos, o fundador da Amazon, recomendou o voto em Hillary Clinton. A seguir ao choque, duas perguntas cruciais surgiram. Primeira, seriam declarações (muito) polémicas com 11 anos, e não as mais recentes, que finalmente terminariam a sua candidatura e o seu sonho de se tornar presidente dos EUA? Já sabemos que não… Segunda, porque é que a dita «conversa de balneário» não foi tornada pública antes… mais concretamente, durante as primárias do Partido Republicano? Não é difícil a resposta: porque se partiu do pressuposto (errado) de que ele seria o «elefante» mais fácil de vencer, decidiram guardar esta «bomba» até ficar confirmado que Trump seria o nomeado pelo GOP e ser determinado qual o momento em que ele estaria alegadamente mais vulnerável…
… E que acabou por ser o dia 8 de Outubro (exactamente um mês antes da votação final), ou seja, a seguir ao primeiro debate (a 26 de Setembro) com Hillary, em que ele, indubitavelmente, não foi o melhor, e na véspera do segundo! Tudo parecia irremediavelmente perdido… Porém, Donald acabou por (conseguir) fazer o que John Nolte, comentador, crítico de cinema (e ex-realizador), e uma das mais mentes mais corajosas, lúcidas e hilariantes do actual cenário cultural norte-americano, sugeriu: reiniciar a corrida em seu benefício. E foi o que ele fez: talvez encorajado pelo triunfo do seu «running mate» Mike Pence no debate com Tim Kaine entre candidatos a vice-presidente, emitiu um sincero pedido de desculpas (algo muito difícil para ele!) por palavras ditas mais de uma década antes, e venceu não só o segundo debate mas também o terceiro (a 19 de Outubro). E venceu a eleição… De nada valeram, pois, as – previsíveis e hipócritas – manifestações de choque, de desagrado, de reprovação por parte de muitos «progressistas» perante a linguagem utilizada – 11 anos antes, repita-se – por Trump. Quantos foram os que a usa(ra)m também, e/ou não mostra(ra)m indignação quando amigos e «camaradas» seus a usa(ra)m? Michelle Obama, que afirmou ter ficado «abalada até ao cerne» («shaken to the core») com o que Trump disse, não sente o mesmo quando ouve o mesmo – ou até pior – vocabulário por parte dos seus amigos Jay Z, Beyoncé, Common, e outros artistas similares? E que dizer de Lena Dunham, outra das mais notórias «celebridades» que apoiaram Hillary, que revelou ter abusado sexualmente da irmã, que enunciou «os cinco cenários em que se pode agarrá-las pela pachacha», e que, com a ex-secretária de Estado, especulou animadamente sobre as características do pénis de Lenny Kravitz?..
… E, principalmente, que dizem os democratas de uma candidata que tem como marido um homem que, mais do que falar em «agarrá-las pela pachacha», de facto o fez, e ainda outras agressões sexuais – incluindo a mulheres que, ao contrário do que Nuno Gouveia afirmou, nunca foram «amantes» dele - que a esposa não admitiu, e que, pior, por causa dessas agressões perseguiu as vítimas? Não é segredo nem novidade que Bill Clinton, durante décadas, andou a mostrar – e a introduzir – o pirilau a/em centenas de mulheres (com algumas consensualmente, sem dúvida)… mas, que se saiba, sempre em privado… o que não foi o caso de Barack Obama em pelo menos uma ocasião. Quatro dias depois do «PussyGate» ter eclodido, foi divulgada (a versão integral de um)a gravação feita pela CNN em 2008 que mostra o então senador pelo Illinois e candidato pelo Partido Democrata à presidência dos EUA num avião… e a exibir uma erecção. Porque é que só oito anos depois, e já quando nenhum efeito negativo tal poderia ter na eleição – e na reeleição – do Sr. Hussein, é que este registo audiovisual é tornado público? A resposta, evidentemente, não é muito difícil de adivinhar…
… E, continuando a falar em indecências captadas em vídeo, talvez seja depois de Barack Obama deixar a Casa Branca que o Los Angeles Times irá finalmente mostrar a gravação que tem de um evento de homenagem, realizado em 2003, ao activista palestiniano, anti-semita e anti-israelita, Rashid Khalidi, em que o Sr. Hussein participou. É muito provável que se trate de algo bem mais chocante do que as «partes pudendas» de BHO.   

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