terça-feira, 14 de março de 2017

Histeria histórica

(Nota prévia - No meu (outro) blog Octanas informo sobre as - desagradáveis - circunstâncias deste texto, originalmente destinado para edição no jornal Público.
Apesar de já não ser necessário para muitos, faço aos leitores, para começar, um aviso, uma recomendação, uma sugestão: no que se refere à política nos Estados Unidos da América (e não só…), desconfiem sempre do que lêem, ouvem, vêem, nos principais órgãos de comunicação social da Europa… incluindo os de Portugal.
Não é de agora, com a eleição e a tomada de posse como presidente de Donald Trump, que as desinformações, descontextualizações, deturpações, as puras e simples mentiras, por acção ou omissão, resultantes de preferências e de preconceitos ideológicos, abundam em jornais, rádios e televisões deste lado do Atlântico. Sem duvida que a vitória do milionário nova-iorquino, e o início do seu (primeiro?) mandato enquanto comandante-em-chefe, exacerbou uma tendência para o alarmismo, o exagero, o ridículo; sim, a histeria está a ser… histórica, e ele só se mudou para a Casa Branca há um mês! Porém, o favoritismo dado ao Partido Democrata em detrimento do Partido Republicano vem de trás, vem de longe, e é injusto. Resulta ou de ignorância ou de ignomínia, porque o primeiro foi, e continua a ser, o partido do racismo (ontem foi a escravatura e a segregação de negros, hoje é a luta contra o «privilégio branco», que justifica crescentes ataques, retóricos e literais, contra caucasianos), da violência e do crime. O segundo foi, e continua a ser, o partido da defesa dos direitos humanos, da liberdade, da dignidade. Não por acaso, o seu primeiro membro a tornar-se presidente foi Abraham Lincoln. Não por acaso, o primeiro afro-americano e a primeira mulher a tornarem-se congressistas em Washington (senador ele, representante ela) eram do GOP. Este, e todos os que o integram e o apoiam, começaram a ser (mais) demonizados depois de Watergate; no entanto, Barack Obama, e/ou os elementos da sua equipa, cometeram muito mais ilegalidades e abusos de poder do que Richard Nixon e todos os seus «homens do presidente» - quem tem dúvidas que consulte o meu blog Obamatório, no qual, desde 2009, apresentei sucessivamente provas disso. Ralph Nader – insuspeito de ser um direitista - afirmou que nunca houve um vigarista maior na Casa Branca do que o Sr. Hussein… que saiu daquela com um índice de popularidade médio total inferior ao de «Tricky Dicky»!
Donald Trump é, inquestionavelmente, um caso especial. O seu estilo, o seu percurso, as suas afirmações e acções foram, e são, polémicas, polarizadoras. Todavia, e desde a madrugada de 9 de Novembro, ao fazer o discurso de vitória em Nova Iorque, não pode ser acusado de não ter apelado a todos os americanos, de não ter prometido ser o presidente de todos, de trabalhar em prol de todos – o que não implica, obviamente, prescindir das suas ideias, dos seus objectivos, das suas políticas. Não acreditem nos que dizem que a sua presidência, até agora, tem sido um «caos»: este, sim, está instalado nas fileiras dos opositores – quer os gabinetes de democratas quer as redacções de jornalistas – que nitidamente não têm estofo para aguentar, deixando-os confundidos, desorientados, quiçá apoplécticos, a quantidade, a velocidade e a intensidade das suas actividades, das suas decisões, das suas iniciativas, … todas elas, note-se, em cumprimento das suas promessas eleitorais! Ninguém pode dizer que não se sabia o que ele queria fazer, pois ele repetiu-o sucessivamente… mas, pelos vistos, nem todos acreditaram que ele iria mesmo (tentar) fazer.
Será que, depois de todo este tempo, ainda não se aperceberam de que Donald Trump não é um político como os outros? E que todas as «notícias» (previsões) sobre a sua «morte política» se revelaram (para citar Mark Twain) muito exageradas? Primeiro, não acreditaram que ele pudesse ganhar; depois, assim que ele ganhou, multiplicaram os esforços para diminuir o seu triunfo, tirar a legitimidade àquele e ao seu mandato. Realçaram o facto de ele não ter ganho o voto popular - «argumento» de maus perdedores, porque sabiam quais eram as regras antes do «jogo», e, se discordavam daquelas, deviam tê-lo dito e tentado alterá-las antes… mas ainda bem que o colégio eleitoral vigora, porque a vantagem de Hillary Clinton no total de votos deveu-se à sua vantagem na Califórnia, Estado que não oferece qualquer garantia de que só cidadãos, e não imigrantes ilegais, votam. Além disso, nem sempre, ou raramente, os vencedores nos EUA têm 50% + 1 dos votos expressos… lá as eleições presidenciais não têm «segunda volta»; Bill Clinton, por exemplo, teve, nas suas duas vitórias, menos de 50%, e Hillary, em 2016, teve menos votos do que a soma dos votos de Trump, Jill Stein e Gary Johnson. Alegaram a existência de irregularidades na contagem, em especial em (três) Estados fulcrais (Michigan, Pensilvânia, Wisconsin) em que DJT ganhou… mas as poucas recontagens feitas deram-lhe mais votos! Tentaram convencer os membros do colégio eleitoral a não o escolherem… mas foram mais os que renunciaram a Hillary Clinton do que a ele! Acusaram a Rússia – isto é, Vladimir Putin e os seus serviços secretos – de terem influenciado as eleições a favor de Trump… mas nunca qualquer prova disso foi apresentada. Afirmaram que «falsas notícias» tinham contribuído para o triunfo dele… mas, desde que ganhou, praticamente todas as (inequívocas) «falsas notícias» - quase 100 segundo uma contagem recente – foram feitas contra o novo presidente, sendo delas um exemplo a retirada do busto de Martin Luther King da Sala Oval - «notícia» dada por um repórter da Time que, claro, não era verdade.
A dualidade de critérios, a hipocrisia e a memória curta são, como habitualmente em tudo o que se relaciona com os EUA, imensas e insultuosas; são tantas as indignações selectivas. A ordem executiva, que não é «anti-imigração», que determinou, não o (erradamente) denominado «banimento de muçulmanos» mas sim um controlo fronteiriço mais apertado durante quatro meses, apenas afecta sete países (de maioria muçulmana, mas só uma pequena parte dos praticantes daquela religião a nível mundial), dos quais efectivamente vieram, em dez anos, bastantes indivíduos – mais de 70 – acusados e condenados por terrorismo, tentado ou concretizado; contudo, talvez nem todos os que protestam sabem que a decisão resulta de uma lista elaborada pela administração de Barack Obama, que, aliás, em 2011 proibiu a entrada de iraquianos durante seis meses; e talvez desconheçam também que seis daqueles sete integram uma outra lista – a dos (16) países que proíbem, não temporária mas sim permanentemente, a entrada de israelitas nos seus territórios… e onde estão as manifestações contra aqueles por tão flagrante discriminação e objectiva xenofobia? Por falar em manifestações, as ditas «das mulheres», realizadas, nos EUA e em outros países, a 21 de Janeiro, no dia seguinte ao da tomada de posse de Donald Trump, por este ter feito em privado alguns comentários brejeiros em… 2005 (e pelos quais o então candidato pediu desculpa, o que é muito raro nele), teriam ganho uma outra, e maior, credibilidade, se tivessem sido direccionadas igualmente contra as nações – as que têm o crescente na bandeira – que discriminam, maltratam, oprimem as mulheres (e não só)… embora tal nunca seja de esperar por parte de esquerdistas, sempre receosos de serem acusados de «islamofobia», e onde se inclui Linda Sarsour, uma das organizadoras do «ajuntamento» principal, em Washington, uma muçulmana apoiante de terroristas, defensora da «sharia», e que considera irrelevante que as senhoras conduzam automóveis.
Ainda neste âmbito, é de assinalar que o diferente tratamento dado a mulheres consoante a sua ideologia é outra marca da hipocrisia. Objectivamente, Kellyanne Conway mereceria sempre ser enaltecida por ter sido a primeira mulher a dirigir uma campanha presidencial vencedora. Porém, e injustamente, está a ser caluniada e caricaturada como (um)a personificação de desonestidade. Muitos criticaram e ridicularizaram a agora conselheira de Donald Trump por ter falado em «factos alternativos» - um evidente lapso, porque ela quereria dizer «fontes (noticiosas) alternativas» - mas não fizeram o mesmo quando o New York Times inventou a expressão «promessas incorrectas» para defender Barack Obama, desmascarado como mentiroso (uma vez entre várias) por ter assegurado falsamente que, com o «ObamaCare», todos manteriam os seus planos de saúde e os seus médicos. Voltaram à carga contra a «elefante» por causa do alegado «Bowling Green Massacre», mas nada se ouve quando duas idosas representantes «burras» da Califórnia, Maxine Waters e Nancy Pelosi, dizem idiotices – a primeira desconfia da Rússia por ter invadido a «Coreia» (pois… foi a Crimeia) e a segunda recusa colaborar com o «Presidente Bush» (pois… agora é Trump). Enfim, acusam Conway – desta vez com alguma razão – de ter infringido normas de conduta ao apelar à compra de produtos (de Ivanka Trump, que está a ser alvo de um boicote comercial por motivos políticos) mas não acusaram Michelle Obama quando esta fez praticamente o mesmo.
Nenhuma acusação contra Donald Trump, os seus familiares, os membros da sua administração, os seus apoiantes e o Partido Republicano, todavia, é mais ridícula do que a de eles serem «racistas» apoiantes do Ku Klux Klan, «supremacistas brancos», «neonazis» e «anti-semitas».
A sério?! Vejamos… O actual presidente dos EUA promoveu, enquanto empresário, o fim da discriminação contra judeus em clubes na Flórida; tem um genro judeu (que se tornou um dos seus conselheiros mais próximos e confiáveis) e uma filha que se converteu ao judaísmo aquando do casamento; mostrou-se favorável à mudança da embaixada dos EUA em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. O seu filho Eric afirmou que David Duke, ex-líder nacional do KKK, «merecia (levar com) uma bala». Jeff Sessions, agora procurador-geral dos EUA, enquanto procurador no (depois senador do) Alabama, e entre outros feitos, promoveu o fim completo da segregação nas escolas daquele Estado, acusou (e conseguiu a condenação à morte de) um líder local do KKK… e em 2009 recebeu um prémio do NAACP! A Breitbart, de onde provém o tão (imerecidamente) vilipendiado Stephen Bannon, é o espaço na Internet que mais denuncia e combate o islamismo e que mais defende e elogia Israel – eu sei isso porque consulto aquele sítio quase todos os dias há quase dez anos.
Obviamente, é na esquerda que se encontram os verdadeiros neonazis – aliás, convém nunca esquecer que os nazis originais integravam o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Qual é a ideologia dos que – e não só na América – constantemente vituperam a nação de David, única (e exemplar) democracia no Médio Oriente, e, ao mesmo tempo, desculpabilizam – nem que seja pelo silêncio – as nações de Maomé, incluindo os muçulmanos mais fundamentalistas, radicais? Qual é a ideologia dos que praticam a violência contra opositores, em especial (e desde há vários anos, tendo-se agravado durante a presidência de Barack Obama) nas universidades, várias das quais autênticas fábricas de fascistas que «ilegalizam» a liberdade de expressão, com hordas de alunos doutrinados por professores «progressistas» a impedirem – ou pelo menos a dificultarem – as presenças e as palestras de oradores conservadores, de direita, internos ou externos a essas universidades, com recurso a ameaças, a agressões físicas tentadas ou concretizadas, à destruição de propriedade pública e privada? O recente motim ocorrido na Universidade de Berkeley, na Califórnia, contra a visita, para um discurso e um debate (que acabaram por ser cancelados), de Milo Yannopoulos, estrangeiro (inglês) com ascendência judaica, e homossexual que regularmente confessa a sua preferência por homens negros, ilustrou ironicamente, e absurdamente, como os esquerdistas são «especialistas» em projecção, como têm atitudes e comportamentos que criticam e condenam (falsamente) noutros. Enfim, os democratas não mudaram assim tanto, pois continuam a (tentar) barrar a entrada de certas pessoas nas escolas que têm por exclusivamente suas: até aos anos 60 eram os afro-americanos, depois foram e são os que pensam de maneira diferente.
Evidentemente, não são apenas de (indecentes) docentes e discentes que vem a validação do vandalismo. Também vem de políticos como Tim Kaine, senador da Virgínia que foi «running mate», candidato a vice-presidente, de Hillary Clinton, que apelou a que se «proteste nas ruas». Também vem de «artistas» e de «celebridades» como: Madonna, que «sonhou» em fazer explodir a Casa Branca (desde que Donald Trump e a sua família se mudaram para lá), sem dúvida porque a sua promessa (não cumprida) de fazer fellatios a todos os homens que votassem em Hillary não teve o resultado desejado (por ela); de Sarah Silverman, que pediu um golpe de Estado militar; de Robert de Niro, que por mais do que uma vez expressou a sua vontade de esmurrar o actual presidente. Pior, também vem de «jornalistas» como India Knight (Sunday Times), Monisha Rajesh (The Guardian) e Steven Borowiec (Los Angeles Times), que desejaram, mais ou menos explicitamente, o assassinato de Trump, tal como os editores das revistas Village (irlandesa) e Der Spiegel (alemã), que em capas recentes colocaram, a primeira, uma fotografia de DJT com um alvo sobre a cabeça e as palavras «Porque não», e, a segunda, uma caricatura do mesmo com, numa mão, uma faca ensanguentada, e, na outra, a cabeça decepada da Estátua da Liberdade.
A verdade é que Donald Trump está a ser objecto de mais manifestações, protestos e irritações do que Abu Bakr Al-Baghdadi. O que constitui um motivo de reflexão… e de preocupação. (Transcrição no Cedilha.

1 comentário:

JPG disse...

Texto reproduzido em cedilha.net.